27.9.07

RICARDO DARIN


Homem que chora

Ricardo Darín, o galã argentino, cresceu, tornou-se ator de teatro e cinema e agora chama a atenção do mundo em papéis nada óbvios




Diego Oscar Ramos - TRIP 148 - 2006 - Fotos: Claudia Jakszin




Conhecido no Brasil pela atuação magnética de Nove Rainhas e O Filho da Noiva, e estrela do elogiadíssimo A Aura (estréia este mês no Brasil), Darín conversou com a Trip sobre arte, música brasileira, crise argentina e política latino-americana. E futebol, claro. Porque tem esta: não bastassem os olhos azuis, que ameaçam desabar a qualquer momento, ele ainda é amigo do Maradona 


O olhar é um lago cristalino onde descansa um antigo animal. Essa é a primeira coisa que observo em Ricardo Darín: o olhar magnético que todo argentino conhece, porque assistimos a ele durante anos e anos construindo uma infinidade de filmes, séries ou telenovelas. Sem dúvida, é um portenho galã, querido e simpático, o neto de 49 anos que toda avó gostaria de ter. Muita gente ficou surpresa vendo o rapaz bonito da televisão crescer até se tornar o ator que hoje imanta o público com personagens complexos e de maior densidade. Porque esses olhos que despertam ternura em O Filho da Noiva são os mesmos que conseguem aterrorizar em A Aura, para muitos seu auge em composição – com estréia marcada para este mês no Brasil. “Quando as pessoas gostam da história, fecha-se o círculo para o ator. Se é teatro, o público está ali e é mais estimulante. Mas é possível sentir isso no dia da estréia de um filme, observando se aquilo que acreditávamos que ia emocionar funciona mesmo ou não.
Quando vemos que a coisa vai, é uma sensação muito prazerosa.” Apesar do sucesso, não há nele um ego inflamado, o afastando do mundo. Pelo contrário. “Faço o que gosto e me pagam bem por isso, mas quando você olha ao redor percebe que há um desajuste na realidade, e isso pesa muito.” Ele afirma que seus prazeres habituais estão impregnados por esse sentimento. “Comer um churrasco, sentar para um truco, jogar tênis, ver um bom filme, escutar música, ler um bom livro, transar, são felicidades ou prazeres limitados, porque a realidade, com gravitação própria, lembra a você, permanentemente, que as coisas no mundo estão distribuídas de uma forma muito caprichosa.”


“Grande mercado persa”


O lago cristalino se turva e o animal antigo mostra sua cara. Ricardo Darín fala dos conflitos em Israel, Líbano e Iraque, e isso lhe tira a alegria. Fala de injustiças e catástrofes que ocorrem no Brasil, na Argentina e em outros países da América Latina, situações que passamos a viver como cotidianas, acostumando-se a elas. “Apesar das intenções das pessoas que possuem mais sensibilidade ou mantêm contato com o povo, o mundo se transformou em um grande mercado persa. Desapareceram as compensações e por trás de cada atitude nobre você começa a encontrar outros interesses”, opina em relação às políticas de Lula ou Kirschner.
“Há pouco espaço para idéias ou planos que modifiquem as coisas. A concentração da riqueza será cada vez mais aguda, e este lugar que habitamos [América Latina], naturalmente maravilhoso, vai se transformar em uma zona de altíssimo risco.” Com essa mesma convicção, ele protagonizou campanhas do Greenpeace, defendendo os índios wichis pela perda de suas terras devido ao desmatamento na região argentina de Salta. Darín sente que muitas vezes depreciamos a vida, e isso se manifesta em circunstâncias corriqueiras – por exemplo, como dirigimos. “No Rio de Janeiro as pessoas parecem totalmente loucas quando estão à direção. Acredito que seja uma questão cultural, porque são muitos milhões de habitantes, com diferenças sociais muito marcadas”, assegura com o olhar firme. Diz que faz esses comentários à vontade, porque sempre viajou ao Brasil, a turismo ou a trabalho. “Tive oportunidade de visitar o Brasil inúmeras vezes. Rio, São Paulo, Porto Alegre, Salvador... Faço isso desde os 16 anos. Adoro o Brasil.” De qualquer maneira, reconhece que, quando alguém chega de fora, não entra em contato direto com os problemas do país. “Você não está a par do que está acontecendo mesmo, não se mete no conflito que há entre a polícia, os garotos e os traficantes, não sabe da reorganização social que se estabeleceu na favela.” Darín diz que tenta não endurecer seus sentimentos, mas que tem de se esforçar para que suas alegrias sejam duradouras. Como bom portenho, fez psicanálise – agora prefere se auto-analisar. Acredita muito nas atitudes individuais de mudança, assim como nos poderes da arte. “Escutar um bom tema musical pode salvar o seu dia. Ver uma boa peça de teatro pode ajudar para que pense em outra direção, assim como um bom filme faz com que você sinta que a vida merece ser vivida.” Parte desses estímulos ele encontrou na arte do Brasil, nas canções de Caetano, Vinícius, Bethânia, Gil, e filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos e, mais recentemente, Central do Brasil e Cidade de Deus – e este lhe causou um forte impacto. “Meu contato com o Brasil tem a ver sobretudo com os livros, a música e tudo o mais que, logicamente, chega por proximidade e também porque há algo de fraterno nos unindo no tempo – apesar das rivalidades esportivas.” O ator esclarece que não gosta das telenovelas: “Respondem a um formato muito arcaico: a fazenda, o menino rico, a menina pobre... Não é precisamente o que eu mais gosto”. 

Barishnikov no banheiro

A água de seus olhos ficou pura e cristalina quando recebeu o telefonema de sua filha, avisando que estava para chegar. Em um gesto de sorriso, diz que o casal de filhos é um presente. “Se além de tudo você tem a sorte de ter dois filhos descolados, sensíveis, que se preocupam com os demais, isso o faz se sentir orgulhoso, não importando o que venham a fazer na vida.” Diz que a única coisa que deseja, verdadeiramente, é que sejam felizes. “E para isso não têm de escutar a mim. Então é uma luta permanente, pois tenho de passar informação para eles, mas sem exagerar, para não aterrorizá-los.” A idéia é que lhe basta cuidar deles, estar atento ao que necessitam, porém sem invadir espaço.
Com os dois, faz o que sempre fez e nunca deixará de fazer: jogar, seja o que for – cartas, tênis e também o futebol, uma de suas grandes paixões. Esta, em particular, Ricardo Darín compartilhou por mais de 15 anos com seu amigo Diego Maradona, que desde os tempos em que jogava em seu primeiro time, Argentinos Juniors, participava de torneios beneficentes organizados pelo time de Darín com outros “galãzinhos” das novelas televisivas. “Estou contente por sua recuperação e pelo novo rumo que deu à vida, mas nossos caminhos se bifurcaram nesses últimos tempos. Nossas famílias continuam unidas, estamos em contato mas perdemos um pouco do convívio, estamos muito adultos”, diz com uma melancolia que desaparece em seguida, quando começa a descrever como é jogar com o craque. “Nessas horas, minha feição muda, assim como muda quando me falam de minha filha. Viro fã! Estar em campo com Diego é algo excepcional. Primeiro porque tem que superar o estado de cholulez [babação] inicial. Parece que todos, inclusive os rivais, estão com um caderninho na mão para pedir um autógrafo. Uma vez superado esse estado de petrificação, que leva um tempo bastante longo, sobrevém outra etapa. Quando ele toca na bola, sempre se espera que chegue ao gol esquivando-se de todo o time. Por fim, ocorre outro fenômeno: se ele quer que você jogue, você joga melhor do que nunca em sua vida.” O animal titubeia, não quer se mostrar, mas continua com as reflexões. “Comigo já aconteceu de tudo. Joguei melhor do que nunca, joguei pior do que nunca... e se ele quer que você não jogue, você não joga. Porque, dentro de um campo de futebol, Diego é uma espécie de mago.” O mais extraordinário, segundo Darín, é vê-lo em ação no “papifútbol” (futebol de salão). “Não se parece com nada. É como Barishnikov dançando dentro de um banheiro.”

Crise boa

Cada vez mais além das fronteiras do país, ele hoje dá seu talento a um mundo que parece amplificar-se ao seu redor. Filmou na Espanha o filme La Educación de las Hadas, dirigido por José Luis Cuerda, está para iniciar a filmagem de um novo longa com o argentino Eduardo Mignona, o mesmo diretor de El Faro y la Fuga, mas diz necessitar de uma mudança: “Vou tranqüilo, devagar, estou empenhado em levar as coisas de maneira calma. Trabalhei muitíssimo nos últimos oito anos, estive fora de casa durante bastante tempo, fazendo teatro na Espanha e cinema na Argentina, e chega um momento em que você está dormindo em um hotel e se pergunta: ‘O que estou fazendo aqui, por que não estou na minha casa?’”. De súbito, os olhos calmos fixam-se em mim e perguntam se tenho filhos. Como que buscando cumplicidade, investigando os sentimentos do interlocutor, Ricardo Darín dá pistas de onde acredita estar o verdadeiramente importante. E me diz: “Já vai acontecer com você”. E a água de seus olhos então se ilumina, revelando o rosto do animal fraterno. 

Que sorri. Na Trip # 148, o par de olhos celestes fica marejado ao falar da família, da crise social que seu país atravessa desde 1991 e, pasmem, revela ter se incomodado com a derrota do Brasil na Copa

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