23.9.07

Creadores



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Lucrecia Martel: guarde esse nome, pois ela veio pra ficar. Com O Pântano, sua estréia em longa-metragem, a diretora argentina surpreendeu a todos com um cinema provocador e autêntico.
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Diego Oscar Ramos / Fotos Claudia Jaksyn


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Amante da navegação, da cultura popular e da jangada cearense, ela prepara um thriller de terror sobre a família ocidental e quer voltar ao Brasil para refilmar o que nem Orson Welles conseguiu. Mas foi com A Menina Santa (2004) — cujo DVD chegou às locadoras — que a cineasta se firmou como uma das maiores surpresas da sétima arte. "Ela domina uma técnica que só se atinge com experiência e talento: o poder de sugerir sem mostrar", diz Pedro Almodóvar, admirador e produtor de um de seus filmes.



A água. Em um bote a diretora rema, com destreza, em um dia de calor num dos braços do rio Tigre, ao norte do Gran Buenos Aires, para alcançar o barco de madeira que comprou com o lucro de seu último filme. Integrante de uma marina, Lucrecia, que foi remadora por quatro anos, se deixa aconselhar por seus companheiros — sempre homens —, que costumam olhá-la com estranheza. "Sou hiperaquática", define e conta que quando menina navegava em enormes diques com sua família a bordo de barcos a vela chamados pamperos. "Sentia que havia algo na composição dessas forças aquáticas que entendia rapidamente e que não me dava medo." Agora, assume o comando de seu barco como quando escreve seus roteiros.


O despertar. Lucrecia Martel nasceu em 1966 na província de Salta, região argentina sem mar mas repleta de rios como o Bermejo, que chega até a Bolívia, zona fronteiriça e matéria-prima de O Pântano (2000), sua obra premiada em festivais como o de cinema latino de Toulouse, o de Havana e o Sundance. A fita retrata mulheres em casamentos cansados num ambiente onde sobrevivem antigas tensões raciais e de classe, em um clima de opressão cujo centro dramático é uma piscina de água densa. Mais limpa, porém com intensidade semelhante na trama, é a água da piscina do hotel de A Menina Santa, indicado em Cannes à Palma de Ouro, com produção de Pedro Almodóvar. Dessa vez o filme parece aliviar angústias morais adultas ainda ausentes em meninas púberes católicas em pleno despertar sexual, cuja missão de vida parece ser a de santificar a sexualidade para que a vida flua, como a água onipresente no olhar de Lucrecia.


A política. Debaixo da sombra de uma árvore e perto de adolescentes que almoçam em frente ao rio Luján, Lucrecia Martel diz que faz cinema para desnaturalizar o que nossa cultura estabelece como lógico. "Minha posição ante o cinema é política, cada vez que alguém reflete sobre algo tentando transformá-lo é política." Sobre as piscinas de seus filmes, surpreende: "Me parece uma deformidade um reservatório de milhares de litros de água só para uma família, uma falta de moral em torno de um bem comum. Ao mesmo tempo é tão prazeroso que é fantástico para filmar".



A família. Questionada sobre influências cinematográficas, Lucrecia não menciona outros diretores, mas sua família, fonte de suas narrações. "Nas reuniões familiares é que encontro belas e horrorosas estruturas narrativas. A idéia de família ocidental determinada pela descendência do próprio sangue é a célula de todas as deformidades, é onde começa a mesquinhez social, porque está relacionada com a idéia de que as coisas nos pertencem pelo sangue", diz. "E maior do que esse vínculo deveria ser o pensamento de que somos apenas pessoas responsáveis pelo crescimento dos outros." Após dividir a mesma água mineral com o repórter, ela fala de seu polêmico projeto de rodar um filme de terror. "É sobre alguns parentes que aparecem na casa de uma família de classe média alta e se instalam na borda da piscina. Em certas tardes riem e pela noite saem para caminhar." Os monstros podem estar perto, mas o terror da navegadora é quando nós nos fazemos de distraídos.


O cinema. Lucrecia abre seu notebook e mostra imagens de sua viagem a Fortaleza, onde esteve atraída por um filme não concluído de Orson Welles rodado no Brasil. Além de navegar no mar nordestino sobre jangadas cearenses, a argentina encontrou um modelo cultural popular onde o trabalho comunitário é essencial. Por isso registrou em baixa resolução a forma com que o grupo de navegadores vai passando troncos embaixo da jangada para tirá-la da água. Lucrecia já conhecia o Nordeste pelo Cinema Novo, uma de suas referências. Tanto que quer voltar ao Ceará para registrar com uma tecnologia melhor esse sistema de navegação. "Senti algo bonito porque me dá imenso prazer o que é feito para todos e não depende tanto do dinheiro. As jangadas são um sistema de habilidades artesanais e solidárias, toda a sua engenharia naval é popular, um saber que se transmite."

O corpo. Ter navegado sobre as jangadas nordestinas transformou a percepção de Lucrecia sobre o Brasil e também sobre o seu próprio corpo. "Antes me sufocava essa coisa relaxada em torno do corpo. Ia ao Brasil e me sentia pressionada a uma liberdade que eu não me permitia sentir, me incomodava." Reconhece, no entanto, as diferenças entre a mulher argentina, distante e difícil de conquistar, e a brasileira, que parece sexualmente livre. "A grande diferença é a mulher argentina não ter o componente da raça negra, isso debilita toda a ação católica sobre a educação das mulheres, sobre o corpo, sobre as formas de relacionar-se em sociedade." Pensa um pouco e completa: "Tem também os portugueses, que são muito dramáticos, talvez mais até que os espanhóis".


A distância. Às margens do rio, caminhamos com menos palavras e mais olhares em direção à água, os velhos barcos abandonados, os botes, lanchas e canoas, tudo parte de uma paisagem agradável e pública do Tigre. Ao chegar à estação de trem, pegamos as passagens com destino a Buenos Aires e aproveitamos para falar da América Latina — porém não de seu cinema. "Tamanho é o contato com a estrutura nua, com a grande maioria da população sem o conforto que distancia da realidade, que é um continente em carne crua; e isso é interessante." Lucrecia lamenta por Lula "não ter conseguido escapar do modelo neoliberal". Tomamos a água, o trem vai deixando para trás o delta e, com o entardecer, Lucrecia se lembra de um detalhe costumeiro em suas viagens: sua paixão por fotografar rios e pontes.


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